domingo, 28 de agosto de 2011

Espetáculo

No espetáculo da vida, existe um intervalo entre dois atos que modifica um ser humano. Esse intervalo se situa, precisamente, entre pegar um livro da estante e devolver-lhe a cria depois de ter sido profundamente atingido por ela.

Não será exagero dizer que os instantes em que somos colocados diante de grandes obras são sublimes e engrandecem aquele que se põe diante de revelações, conhecimentos que a vida não se encarregaria de proporcionar por si só. É indispensável que se busque nas prateleiras a matéria que alimenta alma e razão. Torna-se impossível elevar a condição humana sem recorrer a este ambiente onde mora a sabedoria.

Nossos braços se esticam para alcançar páginas entrelaçadas, por sua vez situadas no intervalo entre capa e contracapa. Estamos todos à espera do alcance e entre o espaço de dois limites. Os braços se esticam, a mente se eleva. Uns alcançam a matéria, outros o conteúdo. Os limites, por sua vez, não nos limitam. Convivemos com o aprendizado proporcionado pelo encontro com um livro até o momento que nos despedimos dele, enriquecidos pelo que ele agregou à nossa vida.

Que pobre existência seria a humana se fosse resumida à sua própria. As páginas que vêm às nossas mãos felizmente são o registro da sabedoria de outrem. É outro motivo para que não haja limite. Sabedoria é compartilhar as suas experiências, a sua fraqueza, as suas divagações, a sua condição de ser humano, de ser verbal e de ser livre. Que se aproveitem as oportunidades, portanto. É preciso mergulhar nesse intervalo. Se necessário, despir-se; se não, render-se com a roupa do corpo.

Os aplausos virão no decorrer do espetáculo e ecoarão na própria mente ao chegar à contracapa. Até que os braços retornem à prateleira e busquem seu próximo destino.

quarta-feira, 13 de julho de 2011

Passageiro

Difícil partir, ainda que não definitivamente. Saber e carregar dentro de si a consciência de que a próxima parada, sim, é a última. Ter em si ainda nítida a lembrança de quando se subiu no último vagão, ainda engolindo em seco a sensação de susto por enfrentar uma nova realidade, tão desconhecida ainda que desejada. Colecionar as memórias do que aconteceu e do que se aprendeu no decorrer da longa viagem que passou sem que o tempo desse trégua, avançando na velocidade de tudo o que é efêmero. Sentir a volatilidade daquilo que se pensava agarrar e que evaporou num piscar de olhos. Guardar as sensações mais relevantes e forçar a memória a não perder mesmo as mais ínfimas. Sujeitar-se a largar aquilo que outrora concentrou toda a sua entrega. Tentar o desapego. Olhar pra frente mirando o horizonte, mas concentrando a visão periférica no que o retrovisor ainda alcança. Esquivar-se da dolorosa sensação de despedida. Continuar segurando firme rumo ao desembarque com a mesma insegurança com que se subiu à plataforma de embarque, mas carregando uma bagagem incomparavelmente maior.

Prazeroso, entretanto, ter consciência de tanto aprendizado. Guardar nomes de cada passageiro, tenham eles embarcado na mesma estação, nas anteriores ou nas que se seguiram. Lembrar que o rosto permaneceu o mesmo, mas saber que foi permitido que o vento bagunçasse o cabelo, chacoalhasse as ideias e soprasse contra si e a favor da mudança. Acompanhar através da janela a transição de paisagens. Perder-se em meio ao conhecimento, reconhecer sua insignificância diante do universo, da diversidade de pensamentos, culturas, crenças, histórias- fictícias ou não. Encontrar-se a cada dia mais longe da origem, mais perto do destino, sejam eles quais forem. Saber que o caminho se divide ao multiplicar-se e não se esgota, que o destino final é meramente provisório e que virão novos trens, novas oportunidades de embarcar para, novamente, e, enquanto houver vida, entregar-se a mais uma brusca mudança de velocidade que contribua tão somente para descobertas mais instigantes e renovadoras. Lançar-se. Ao infinito.

terça-feira, 5 de julho de 2011

Retorno

Talvez seja tarde demais para ousar uma volta que pode ser tão insatisfatória quando era o rumo que eu seguia antes. É difícil voltar a trilhar esse caminho sem dar passos firmes, sem ter convicção do meu destino, sem saber se é o certo a se fazer. O difícil, entretanto, é necessário. Não faltaram estímulos. A outrem, sempre pareceu muito natural o que digo, muito espontâneo, muito fácil. A mim, parece penoso. Cada palavra sai dolorosamente, carregando o peso de inspiração que pode não ser o bastante e o peso dos motivos que parecem difíceis, senão impossíveis, de se traduzirem.

Volto a caminhar por essa trilha sabendo que os motivos existem, embora o cansaço também se manifeste. Torno a tentar porque as palavras nunca me abandonaram embora eu as tenha guardado em mim durante muito tempo em vez de permiti-las ganharem o mundo e serem contempladas por outros olhares.

As razões pra enfrentar o papel e cavar os mais fundos sentidos estiveram sempre acessíveis. Inacessível fui eu enquanto a rotina me ocupava com horas empregadas em atividades dessas que enchem os ombros humanos de cansaço. É por isso que, ao voltar a encarar o vago espaço de uma folha, perco-me. A lacuna em que me perdi nesse tempo improdutivo me afastou dessa atividade, mas nunca das palavras, nunca dos sentidos. Talvez me falte a audácia necessária a qualquer coração que se permita transbordar. O que outrora parecia mais fácil, agora se torna um desafio. Não que me falte disposição. As pernas, ainda que bambas, são guiadas por uma alma que não esconde o desejo de voltar a encarar suas próprias angústias e torná-las menos íntimas.

Digo, então, que volto. Não carrego o peso de uma promessa, tampouco a responsabilidade de mais uma atividade que se imponha em uma pesada rotina. Não me comprometo, mas também não digo que me acovardo. Eu me disponho, torno a me abrir, a mergulhar nas próprias dores, nas eventuais alegrias, nas certas lágrimas e à entrega, a mais certa das razões que me leva a retornar para o tortuoso caminho de palavras sem propósito.

quarta-feira, 9 de março de 2011

Tênis

Eu não deveria ser seu par de tênis. Não era essa a minha vontade, pelo menos. Te acompanho, sim; amorteço seus impactos, também; mas, depois do suporte, você me joga no canto do quarto ou me esconde no armário até precisar de mim novamente.

Você já me levou pras suas melhores viagens. Me elegeu seu companheiro oficial dos melhores momentos, me guardava cuidadosamente na caixa e eu sabia que esse gesto equivalia a me guardar simbolicamente no seu coração ou na sua lista de favoritos.

Já fui mais cuidadosamente tratado. Talvez tenha ficado mal acostumado, mas você me dava a entender que eu tinha o direito de me considerar um melhor amigo. De um tempo pra cá, entretanto, mudou tanta coisa...

Acho que as coisas não precisavam ser assim. É que eu sempre acreditei em reciprocidade e imaginei que seguir cada passo seu me daria o direito de receber um pouco mais de consideração. Talvez eu já tenha ficado gasto demais e você resolveu abrir mão.

Hoje eu sou mais um na coleção de sapatos, um daqueles que você escolhe aleatoriamente pensando ‘hoje eu escolho esse pra pisar.’.

Enquanto eu não criar forças pra sair do seu pé, vai ser assim. Mas o dia de declarar independência não demora a chegar. A menos que a consciência sussurre no seu ouvido e te faça resgatar nossas lembranças para transformá-las em presente. De novo.



PS.: Independência declarada.

terça-feira, 15 de fevereiro de 2011

Passos falsos

“Laços fracos são os passos falsos.”

Sempre preferi dar passos firmes. As memórias mais profundas que consigo alcançar me dão essa certeza. Atei meus laços com força, fui avessa à distância, à saudade, ao morno, ao superficial; apegada à proximidade, à presença, ao intenso. A firmeza dos meus passos sempre foi reflexo de não ter vínculos vazios. Não sei sustentar relações sem futuro, não sei viver de promessas, sempre precisei ter certeza. Eu necessito da firmeza dos passos, de pegadas profundas, de caminhos trilhados com confiança, de trilhas encaminhadas com lealdade.

Desde muito tempo tenho a distância indesejada como minha maior inimiga. Constantemente procuro a presença para combatê-la, a certeza dos meus vínculos para me encher de confiança, mas a distância, por si só, tem enorme força. Conviver com ela, entretanto, tem me obrigado a achá-la tolerável. A fim de não me desgastar, de não secar a fonte dos meus olhos e de me manter lúcida, obriguei-me a lidar com ela, senão com prazer, ao menos com sabedoria. Ela se impõe, eu a aceito, ou melhor, “aceito”. Não de braços abertos, mas também não com toda a indiferença. Eu a aceito com compreensão e fé porque acredito que um dia ela cansa e vai embora, dando lugar à presença. Ah, a presença... eu a queria sempre próxima, sempre disponível. É que a presença me acolhe. A distância se acomoda a alguns metros de mim e sabe que é forçada a nossa convivência, lidar com ela nunca há de ser prazeroso. A distância nunca viu um sorriso meu e eu não pretendo forçá-lo.

Meus passos, apesar de guiados pela cabeça e pelo coração, são fincados na terra molhada com os pés, senão arrastados no cimento áspero. Aos meus pés interessa a ligação com o coração. Não lhe pode ser indiferente o fato de que estamos todos ligados, pertencendo ao mesmo – fraco – organismo. Meus passos nunca dispensaram a força. É mais natural e mais espontânea a caminhada que se faz na certeza, rumo a um destino conhecido. E é ainda, sem dúvida, mais prazerosa a trilha que se faz acompanhada por pessoas com quem dividimos laços fortes, atados, firmes, que nos conduzem, senão à eternidade, ao menos a um prazer efêmero que se preserva indefinidamente na memória.

Conviver com a distância permanece tarefa dolorosa, mas eu permaneço confiante. Se a distância torna indefinida a certeza da força de um vínculo, torna forte a esperança de dias melhores. Esses virão quando eu puder dar, novamente, passos firmes, acompanhados de quem a vida nunca vai me afastar. Nem a vida – eterna - , tampouco a distância – permanentemente efêmera.

sexta-feira, 28 de janeiro de 2011

O amor e outros objetos pontiagudos

Tinha a mania invasiva de querer fazer parte da vida dos outros como os considerava parte da sua. Lidava, em virtude disso, com o frequente sentimento de frustração. Deparava-se com farpas que o perfuravam no convívio com outrem. Não os culpava. Talvez soubesse de sua ingenuidade burra que sempre entrava no curto caminho para aquela quebra de expectativas que o amor teimava em criar.

O amor é tão gerador de feridas quanto os mais afiados instrumentos de que me lembro agora. A diferença é quem o manipula. Posso me cortar ou ser cortada por alguém com uma faca, bem como posso ter um ferimento provocado por mim mesmo, dada a minha falta de habilidade. O amor é diferente. O amor sempre gera cortes de fora pra dentro. Depende do outro e de sua pré-disposição para ferir – ou de nossa tola mania de nutrir vãs expectativas. Amor-próprio, porém, não dói, não fere, não corta, mas, no meu caso, também não é intenso. Amor-próprio cura. Quando é suficiente.

O amor que se recebe em menor proporção do que se dá, este sim, é o mais perigoso. Vem carregado de falsas esperanças que perfuram dolorosamente e consigo levam a vitalidade da ingênua criatura que se submeteu a ele. Toda a possível resistência daquele que se doou vai embora com o grito provocado pelo corte – ou pela ruptura, se for mesmo definitivo. A resistência evapora no correr das lágrimas, disfarçando-se atrás de um choro visível, não necessariamente escandaloso.

Esse amor que vai sem voltar não cicatriza. Fica aberto e arde indefinidamente. Não permite o esquecimento, não dá sossego, tampouco sono. Dá raiva e esgota quem o sente sem esgotar-se a si mesmo, sem aliviar sequer parte da dor. Como se não bastasse, essa modalidade dolorosa de amor carrega consigo – e para bem longe - o amor-próprio, justamente aquele que não machuca. Talvez a pior escolha que se pode fazer ao amar alguém é abrir mão de ser egoísta. Um dia o pronome reflexivo faz falta e o verbo amar fica desacompanhado do que quer que seja.

É preciso aparar as pontas, des-afiar o amor-sem-volta. Tirar-lhe o potencial cortante e resgatar o amor-próprio, restaurar a imunidade e viabilizar, por fim, a cicatrização. É preciso despir-se da dependência. É preciso que me digam como fazê-lo.

quarta-feira, 5 de janeiro de 2011

Lembrança

Esqueça o desespero, apague da memória as palavras que eu joguei no vento e despejei no papel quando me faltava razão. Esse excesso de intensidade move meus passos no decorrer de todo o caminho, mas também me torna mais exagerada, mais passional, mais burra. Eu não precisava dizer que o amor havia morrido. Deveria ter esperado, esfriado a cabeça. Fiz exatamente o contrário. Escrevi enquanto as lágrimas ainda eram recentes e ferviam, quando o coração parecia querer sair pela boca. E ficou aquele registro que hoje eu invalido.

Esqueça o amorto. Hoje ele é a lembrança de algo que não existiu. Meu amor nunca morreu. Ele se permitiu um tempo pra respirar e experimentar a razão. Coração que não conhece a razão não se mantém lúcido e ferve na insanidade, transborda palavras precipitadas e engana. A si e a quem o escuta. Até que os ponteiros giram, as folhas do calendário são arrancadas uma a uma e a razão vem visitar toda aquela intensidade. Hoje eu continuo amando, mas talvez ame mais consciente e sabiamente do que fui capaz de amar um dia. Hoje eu amo ciente de que tive um passado válido, um presente que me traz aprendizado e um futuro promissor. Talvez eu tenha aprendido a medir tudo numa proporção mais próxima da realidade.

Você já esqueceu? Não vou mais recordá-lo qualquer história de amorto. Conto com a compreensão da sua memória seletiva. A única lembrança que quero deixar viva é a de que meu amor também continua vivo. Muito e pra sempre.