No espetáculo da vida, existe um intervalo entre dois atos que modifica um ser humano. Esse intervalo se situa, precisamente, entre pegar um livro da estante e devolver-lhe a cria depois de ter sido profundamente atingido por ela.
Não será exagero dizer que os instantes em que somos colocados diante de grandes obras são sublimes e engrandecem aquele que se põe diante de revelações, conhecimentos que a vida não se encarregaria de proporcionar por si só. É indispensável que se busque nas prateleiras a matéria que alimenta alma e razão. Torna-se impossível elevar a condição humana sem recorrer a este ambiente onde mora a sabedoria.
Nossos braços se esticam para alcançar páginas entrelaçadas, por sua vez situadas no intervalo entre capa e contracapa. Estamos todos à espera do alcance e entre o espaço de dois limites. Os braços se esticam, a mente se eleva. Uns alcançam a matéria, outros o conteúdo. Os limites, por sua vez, não nos limitam. Convivemos com o aprendizado proporcionado pelo encontro com um livro até o momento que nos despedimos dele, enriquecidos pelo que ele agregou à nossa vida.
Que pobre existência seria a humana se fosse resumida à sua própria. As páginas que vêm às nossas mãos felizmente são o registro da sabedoria de outrem. É outro motivo para que não haja limite. Sabedoria é compartilhar as suas experiências, a sua fraqueza, as suas divagações, a sua condição de ser humano, de ser verbal e de ser livre. Que se aproveitem as oportunidades, portanto. É preciso mergulhar nesse intervalo. Se necessário, despir-se; se não, render-se com a roupa do corpo.
Os aplausos virão no decorrer do espetáculo e ecoarão na própria mente ao chegar à contracapa. Até que os braços retornem à prateleira e busquem seu próximo destino.